Quando pensamos nisso, somos remetidos à Vida física, mas também à Vida da Alma. Afinal, qual a nossa ligação à Natureza, ao Céu e à Terra? Qual a nossa relação com o Espaço e o Tempo, com a Astronomia e o Universo?
Tratava-se de uma cultura onde a ciência e a espiritualidade foram desenvolvidas de forma integrada a partir dos conhecimentos da Astronomia. Uma Astronomia que conhecia o padrão gerado na dinâmica dos ciclos astronómicos, na viagem do planeta Terra pelo Universo, e que explica cientificamente que a vida e a natureza na sua superfície são geradas, sobre o mesmo padrão cósmico.
Somos sistemas naturais criados na Terra sobre o mesmo padrão de Espaço-Tempo encontrado pela Astronomia, com a mesma ordem, harmonia e proporção da dinâmica orbital entre a Terra, a Lua e o Sol, na sua viagem sobre o Universo.
Foi sobre as técnicas de observação ao Céu e à Terra que as culturas ancestrais puderam concluir que o estudo dos ciclos e órbitas dos planetas poderia oferecer muitas pistas e ensinamentos importantes sobre a verdadeira identidade do Universo. Foi com o estudo da Astronomia e o sistema circular que as culturas ancestrais puderam aprender com o Universo, Matemática e Geometria, explicando um Universo tridimensional, organizado por cadeias de "sistemas sobre sistemas", de várias ordens e dimensões, reconhecidos também na natureza.
O sistema astronómico científico moderno descreve Universos cada vez mais distantes, sobre dimensões e espaços cada vez mais difíceis de conceber para a Humanidade, criando assim um vazio cada vez maior entre o Universo e o significado da vida no nosso dia-a-dia na Terra. Uma lacuna científica que nos devolve a um sentimento de não pertencimento ao Universo e que nos faz sentir os verdadeiros alienígenas, perdidos algures no Espaço e no Tempo, entregues a uma vida difícil, intensa e sem sentido, que defendemos ferozmente mesmo sabendo que vamos todos morrer.
Esta é uma visão científica da Vida e do Universo pragmática e não espiritualizada. Um pensamento que representa o pilar da cultura moderna, com uma influência importante no desenvolvimento e estruturação da vida da Natureza, da Alma, da Terra e da Humanidade.
A ciência moderna não inclui a Espiritualidade e a vida da Alma no estudo da ordem do Universo, um tema considerado transcendente, entregue a Mestres, Sábios e religiões. São temas e ensinamentos transmitidos sobre escrituras de caráter sagrado, manuais de histórias, metáforas e profecias que explicam como a vida na Terra e a Humanidade estão regidas por Leis e mandamentos de Ordem e boa Conduta sob comando divino. Correspondendo assim, à necessidade Humana de se conectar com algo maior nas suas vidas, mesmo que fora dos parâmetros científicos. Ensinamentos com um foco religioso e espiritual, que revelam conhecimentos profundos sobre Leis e Ordem do Universo, onde estão incluídos e se podem reconhecer conhecimentos de Astronomia Ancestral.
A procura por um sentido transcendente que devolva às nossas vidas um significado espiritual ou sagrado não parece ser uma invenção Humana, pelo contrário, é uma manifestação existencial inata à humanidade, uma intuição que nos encontra sem pedir licença.
Nas culturas ancestrais, as experiências emocionais, a consciência e a espiritualidade são identificadas e observadas como manifestações do próprio Universo. Um Universo de caráter transcendente, espiritual e material, observado e estudado sobre o sistema astronómico, onde as órbitas, os eventos e os ciclos planetários se podem relacionar com a ordem e formas de vida encontradas na matéria, assim como na distribuição do fluxo de energia física e psíquica. Manifestações que se fazem notar sobre múltiplas dimensões e formas, em cada segmento particular no Espaço-tempo da Terra.
A vida Física e a vida da Alma, nas culturas ancestrais, eram assim observadas de forma integrada e indissociável, dentro dos parâmetros do estudo do Universo e da Astronomia, sobre as mesmas leis e ordem, de expansão cósmica.
Era um sistema científico que estudava e observava as manifestações do Universo de forma circular e cíclica, definidos pelo Tempo, Espaço, Movimento e Expansão, onde eram incluídos também, e de forma simultânea, os ciclos e experiências espirituais e emocionais sentidas na vida da natureza.
O estudo dos calendários convida-nos a observar como os conhecimentos ancestrais sobre o Universo e Astronomia relacionam a vida natural e emocional sob as mesmas proporções. Conduzindo, assim, a Humanidade a uma fusão física e psíquica que culmina no caráter mais elevado do relacionamento entre a vida e a natureza física e psíquica: a Espiritualidade.
Uma relação da Astronomia versus Espiritualidade, que explica a presença e as referências constantes a temas e conhecimentos da Astronomia Ancestral em escrituras e ensinamentos espirituais, um pouco por todas as culturas e religiões na superfície da Terra. Conhecimentos e referências culturais ancestrais que continuam a ser transmitidos e ensinados pelas culturas modernas, mesmo que, sem serem identificados ou conhecidas as suas fontes de origem. Ensinamentos e conhecimentos de caráter enigmático, possíveis de explicar e confirmar sobre o sistema astronómico ancestral que está na base dos calendários. Conhecimentos que chegaram até nós de forma fragmentada, através de símbolos e códigos, onde não existe um fio condutor que nos permita estabelecer uma linha de raciocínio que nos conduza à Astronomia.
Einstein e Jung são os grandes inspiradores do Séc. XX para que, hoje, os conteúdos deste estudo e da Astronomia Ancestral sejam possíveis de entender. Com o desenvolvimento de conceitos como 'Quântico', 'Espaço-Tempo', 'Arquétipo' e 'Sincronicidade', que representam novos paradigmas para a nossa cultura, indicam-nos novos caminhos científicos e existenciais onde poderá valer a pena considerar e incluir os conhecimentos da Astronomia Ancestral.
O conceito 'Quântico' é uma dessas referências. Foi introduzido por Max Planck, considerado o pai da física quântica no princípio do séc. XX, que propôs a ideia de que a energia não era emitida pelo Universo de forma contínua, mas sim por 'pacotes'. Uma teoria que nos pode remeter, mesmo que sobre dimensões e linguagens diferentes, aos ensinamentos astronómicos ancestrais, que explicam que o Universo se expande e evolui sobre cadeias de ''sistemas sobre sistemas'', de várias dimensões, que se articulam entre si de forma cíclica, ordenada e proporcional, e não de forma linear ou de causa-efeito.
A Física Quântica teve em Einstein um fundador e, simultaneamente, um seu crítico. Ele acreditava que as Leis da natureza não eram governadas por probabilidades ou acasos, mas sim sobre uma ordem natural, alegando que "Deus não joga aos dados com o Universo". Com esta expressão, Einstein entre muitas outras interpretações possíveis, pode estar a propor a ideia de que existe uma relação de Ordem estabelecida, entre o Universo Físico e o Sagrado. Possivelmente apenas uma intuição por parte desse grande físico que era Einstein, sugerindo que a dinâmica entre Deus e o Universo não deverá ser aleatória ou por sorte, mas sim ordenada, sistemática, mas também espiritual.
O significado 'Quântico' na nossa cultura é um conceito que permanece ao nível das ideias e de caráter subjetivo, não tendo sido ainda integrado de forma concreta na nossa realidade ou natureza, talvez por ter sido um conceito que surgiu ajustado à Ciência Moderna.
Para melhor compreender a vida e a matéria, o sistema de observação científico moderno é fundamentalmente realizado aos níveis microscópicos, moleculares ou atómicos, traduzido sobre equações complexas e valores irracionais. Assim, o conceito de 'Quântico' ficou prisioneiro do sistema científico moderno, que descreve o comportamento da matéria e da energia em formas e escalas inimagináveis para a mente humana.
É cada vez mais comum o uso da metáfora 'quântico' fora de contextos científicos, para transmitir ideias de caráter existenciais ou filosóficas, relacionado com uma espécie de salto evolutivo não-linear, aplicáveis sobre múltiplas e diferentes dimensões existenciais. Um conceito filosófico 'quântico' bastante aproximado do significado científico ancestral, para explicar que o Universo e a Natureza não se expandem nem evoluem de forma linear.
Sistemas formados por estruturas inteiras e indivisíveis, inseridos numa evolução cósmica de caráter cíclico, que se expandem e articulam no Universo em simultâneo com outros sistemas, maiores ou menores do que o seu, que se cruzam dentro e fora de si sobre múltiplas dimensões e diferentes velocidades.
Dinâmicas observadas de forma individual ou simultânea, sobre estruturas e sistemas articulados de forma circular e cíclica, sobre escalas e dimensões evolutivas próprias de cada um, descritas a cada momento no Espaço e no Tempo.
É desta forma que a Ciência e a Astronomia Ancestral nos descrevem um sistema universal que cria e expande todas as formas e manifestações de vida física e psíquica, no Espaço e na superfície da Terra; que se manifesta (torna visível), evolui (transformação) e expande (alcance), de forma quântica.
A formulação teórica sobre a existência de um 'Espaço-Tempo' no cosmos é também um dos conceitos essenciais para a possível integração e compreensão dos conhecimentos que a Astronomia Ancestral nos pode proporcionar.
Na Física Clássica, o Espaço e o Tempo eram considerados entidades separadas e imutáveis. Em 1905, Einstein deu origem à Teoria da Relatividade Restrita, onde sugere que o Espaço e o Tempo são relativos ao posicionamento do observador.
O conceito de 'Espaço-tempo' como uma dupla inseparável, ininterrupta e quadrimensional foi sugerido na Física apenas em 1908, por Hermann Minkowski, professor de Einstein. Mais tarde, na Teoria da Relatividade Geral (1915), Einstein acrescentou ao Espaço e ao Tempo, a Matéria, explicando como a Gravidade não é uma força, mas sim a curvatura do Espaço-tempo causada pela passagem de matéria (massa e energia) no Universo. Tornou-se assim possível pela primeira vez, uma interpretação geométrica do Espaço-tempo na Física Moderna, uma conceção muito aproximada do Espaço-tempo geométrico e matemático ancestral, mesmo que observados sobre diferentes perspectivas.
Na psicologia, Jung introduziu o 'Arquétipo' e a 'Sincronicidade' no pensamento da nossa cultura.
O 'Arquétipo' convida-nos a observar como existem padrões universais que influenciam os comportamentos, pensamentos e emoções de forma inata; a psique e o inconsciente coletivo da humanidade. Padrões psíquicos que se manifestam sobre imagens, sonhos e símbolos, onde os elementos da Natureza e da Astronomia são a principal fonte de inspiração universal.
Um paradigma que nos convida a observar como a realidade física e material e a realidade psíquica e emocional, são ambas criadas e manifestadas pelo Universo, são apenas duas faces da mesma moeda. Onde existe uma correspondência direta e simultânea entre a realidade física e a realidade psíquica, revelada por imagens oníricas ou 'Arquétipos' expressos pelas emoções; a Prima Matéria transformada em alquimia na criação da grande obra que representa a fusão da vida física e espiritual sobre o Universo.
Com a integração do conceito de 'Sincronicidade' existente no Universo na nossa cultura do Séc.XX, e a explicação de que existe uma sincronia entre a realidade física e psíquica, sobre a definição dos 'Arquétipos'. Possivelmente são estes os novos paradigmas que nos vão poder aproximar dos conteúdos astronómicos e científicos das culturas ancestrais. Culturas que nos habituaram a relacionar, de forma simbólica ou concreta, a Astronomia e a Natureza sobre a superfície da Terra.
Jung identifica diferentes perspectivas, posicionamentos e dimensões no Espaço e no Tempo na relação entre a Alma, o Espírito e o Self.
Três estruturas psíquicas que se expandem como matéria, de forma circular e cíclica, na vida sobre a Terra e sobre o Universo.
Enquanto o Espírito é uma identidade dinâmica, sempre em transformação, que comunica, conduz e evolui, sobre o processo de expansão da vida da Alma e a vida consciente e racional gerada pelo Self, na superfície da Terra.
Assim, a Alma comunica com o Self através dos sonhos, sobre símbolos e imagens abstratas e de caráter universal. O Espírito é a manifestação que atua de forma inconsciente sobre o Self e permite que a Alma se faça presente, enquanto ganha forma e se transforma dentro da vida consciente e racional do Self.
Desta forma, Jung convida-nos a acompanhar a viagem da Alma, de forma dinâmica e integrada com o Espírito e o Self pelo Espaço e Tempo, um caminho manifestado de forma evolutiva, em plena expansão pelo Universo.
E se, por alguma razão, em qualquer momento da história, a Humanidade teve a necessidade de separar a Ciência da vida da Alma, talvez agora tenhamos a oportunidade de as voltar a juntar.




